domingo, 8 de Novembro de 2009


Esta semana, num lanche onde se fala de tudo o que interessa com a DMF, ela disse-me assim: "Farto-me de rir a lê-lo e a falar consigo, você tem imensa graça mas acha que a maior parte das pessoas percebe as suas piadas? Esqueça!"Ainda mais nos rimos, graças a Deus. Falar a mesma língua de alguém é extraordinário. A propósito, como não passo por humorado mas antes por reaccionário, vou ali à terra onde não há quem não ande direitinho. Tudo como deve ser a favor dos bons costumes, pelo menos aparentes. Bem-haja ao dr. Jardim. No meio desta gente pseudo-séria que incha por dizer trivialidades e tudo dentro do correcto para cima dos microfones, há um homem insular que diz o que lhe vai na alma sem complexos. Um homem autêntico, concorde-se ou não com o que diz ou opina, com a sua forma patusca ou o tom desmedido. A autenticidade, hoje, é uma virtude no sentido clássico da palavra.

Falsos Indignados


O CDS vai queixar-se àquele ninho de lesmas e gente pegajosa da ERC por não ter sido convidado para o programinha semanal de propaganda da horrível Fatinha que decorrerá amanhã à noite para discutir o programa de governo. Era de louvar que as pessoas desinformadas que deram o voto ao dr. Portas (de resto, só mesmo por desinformação e total ausência de esclarecimento sobre os corredores destas lides) percebessem que isto não passa de um gesto retórico. Durante os próximos tempos, o mesmo dr. Portas vai aprovar, com o cinismo que lhe compete, uma quantidade considerável das propostas socialistas em jeito de oportunismo e, no máximo, deixar as tais "fracturantes" de lado para não parecer mal. São todos umas senhoras.

Caos Calmo

Ainda não tinha visto Caos Calmo, um filme belíssimo e extraordinariamente comovente de Antonello Grimaldi.

Numa praia, dois irmãos salvam duas senhoras que estão a afogar-se no mar. No regresso a casa, comentam a ausência de uma admiração de que se sentiam merecedores por parte da audiência acumulada na areia. Depois de terem recuperado duas vidas, ninguém os valorizou e tornam-se indiferentes. Chegados a casa, um dos irmãos (Nanni Moretti) depara-se com a morte imprevista da mulher e com a sua filha de dez anos desesperada. O filme, com uma enorme carga emocional expressa em pormenores espectaculares de realização (a única coisa improvável é um flashback a Veneza), vive destes dois assuntos: da dor e revolta contra a injustiça de não nos ser reconhecido o nosso valor e a imprevisibilidade da vida humana.

Sozinho com a filha e em circunstâncias profissionais cheias de responsabilidades, este homem decide, no primeiro dia em que leva a filha à escola, permanecer no jardim em frente à espera que a filha regresse. É na confusão da procura de si mesmo, de como conseguir ajudar a criança a superar a sua própria dor, de como conquistar-lhe a confiança, que permanece semanas seguidas naquele espaço criando relações imprevisíveis e de uma enorme intensidade afectiva com as pessoas que ali passam rotineiramente. Ao mesmo tempo que ocupa a cabeça com partes da sua vida que não lhe interessam (como contar todas as companhias aéreas em que já viajou, etc), escolhe viver o caos emocional em que se encontra na calma daquele espaço discreto onde passa a receber os colegas de trabalho e os amigos.

No meio desta intensa procura de um sentido, a trama leva a que volte a cruzar-se com a mulher que tinha ido buscar ao mar. E é com ela que, com toda a humanidade, o fenómeno de libertação acontece. A cena de sexo muitíssimo intensa que os une espontaneamente é o momento simbólico da passagem da dor à aceitação.

A mensagem é clara. Anda-se por cá a desprezar sistematicamente o que nos rodeia em enormes actos de egoísmo e sem perceber que a vida é sempre e totalmente imprevisível. Se se percebesse o valor das pessoas e que nos nossos actos podemos conter um intenso valor simbólico do nosso afecto no tempo certo, a dor seria mais inexistente.

sexta-feira, 6 de Novembro de 2009

Bom Fim-de-Semana


Às vezes, a vida pede-nos, em circunstâncias pessoais ou profissionais, que deixemos para outros e por causa dos outros aquilo que queremos para nós, que fizemos tudo por ter e que, quando o processo termina, conseguimos ser melhor entendidos do que antes sem que, mesmo assim, fique correspondido um átomo do nosso desejo mais íntimo. Julgo que a aceitação desta realidade dolorosa é das mais altas provações que nos são dirigidas. Ser capaz disto, não pela revolta mas pelo expoente máximo do Amor e do perdão é, ainda que muitíssimo corrosivo, que com isso não se ganhe em troca o objecto do nosso desejo, que fique uma gigante sensação de que "apenas" conseguimos aliviar o Outro e ficarmos conscientes de permanecermos alvo da injustiça, ainda assim, como dizia, é a forma como se encontra o caminho para um módico de paz que tarda sempre em chegar mas que chegará.

segunda-feira, 2 de Novembro de 2009

Ela e as outras

Quando oiço Amália Rodrigues, torna-se evidente que nenhuma dessas imitações pífias que para aí gritam uns acordes (mais ou menos afinados, não é relevante) algum dia chegará aos seus tacões. Amália era uma senhora, estas garotas não passam de uma vulgaridade. Amália abria a boca para ser eloquente nas suas interpretações, estas garotas abrem a boca para se repetirem. Amália era autêmtica, estas garotas são produtos trabalhados pelo marketing com vozes agradáveis (nem todas). Amália tinha vida própria e consequente biografia, estas garotas têm o que lhes oferecem. Amália era única, estas garotas proliferam à velocidade da luz. Estas garotas entram naquela portuguesa mania ridícula de achar uma "nova Amália" (ou por elas ou pelos jornalistas), Amália despediu-se a dizer que a única coisa que queria era ficar no coração das pessoas.

domingo, 1 de Novembro de 2009

Pusilânimes


Está a passar uma tonteria boazinha na RTP sobre a Guiné, as suas enormes e desumanas fragilidades, clama-se por ajuda e esperança mas nunca se diz que aquele é o país onde o que tem de acabar e não acabará tão cedo é o tráfico de droga e a corrupção das elites locais nesse contexto. Este sentido de responsabilidade a que, permanentemente, Portugal se entrega é típico de gente (no caso, de um país) extraordinariamente mal resolvida com ela própria e a sua História. Tretas. Sensações. Está-se ali, durante uma hora e tal, a massajar o inútil e, com o que se mostra, não se resolve um átomo daquelas vidas miseráveis.

Mais uma Machadada



O Público mudou hoje de direcção. No editorial, já se vai avisando que "não escamoteamos o facto de ser nossa primeira obrigação repor essa credibilidade ameaçada, conscientes que estamos da percepção pública de um excesso de peso ideológico no jornal." É, portanto, de esperar o pior desta gente. Portugal é uma imensa vergonha, uma enorme amargura para quem vive preocupado com a coisa pública.