"O drama da Europa é que ela nunca está onde se espera encontrá-la", N. Gnesotto
Será que, afinal, a humanidade cria problemas para os quais não é capaz de encontrar soluções? Até hoje, a história parecia dar razão a Marx, que afirmou que o homem só formula problemas para os quais é possível descobrir respostas. Será que, também aqui, as coisas estão a mudar?
A frequência com que hoje, nos mais diversos sectores ideológicos, se fala, invoca ou reclama um novo paradigma é no fundo o reconhecimento de que o quadro actual de soluções pensáveis e disponíveis não corresponde aos problemas que se nos colocam. E que, em rigor, não se trata pois de soluções, mas de paliativos. De resto, se essas soluções existissem, isso saber-se-ia… e que político não avançaria, afoito e determinado, se tivesse na mão a solução para o problema do (não)crescimento, do desemprego ou do clima?
É contudo importante compreender que a principal razão por que não há soluções não é porque não haja ideias, mas porque não há poder para as concretizar: a globalização dissolveu o poder político nacional sem viabilizar nenhum poder político global. Os Estados deixaram de ser centros de autoridade soberana, eles não controlam a moeda ou a informação, a tecnologia ou as trocas internacionais. A máxima "pensar global, agir local" revela-se um slogan inútil e enganador. O que os cidadãos sentem é que os Estados encarnam cada vez menos o colectivo, dando lugar a uma impressão de impotência e de inutilidade, com o qual lidam de um modo contraditório, ora desprezando-os com sobranceria, ora exigindo-lhes tudo com angústia.
A globalização tornou assim toda a política externa num elemento decisivo da política interna. A consciência deste facto e a das suas consequências são da maior importância para a Europa. Porque agora, que o problema institucional foi ultrapassado com a entrada em vigor do Tratado de Lisboa, é o momento certo para se dar um conteúdo mais ambicioso ao seu projecto.
O desenlace de Copenhaga e a lentidão na reacção ao terramoto no Haiti não foram certamente os melhores sinais que a "nova" Europa do Tratado de Lisboa gostaria de ter dado. Mas a ocasião criada pelas propostas de Obama para uma profunda alteração das regras do mundo financeiro oferecem uma outra oportunidade, que seria excelente não perder. Bastava que a Europa o apoiasse a uma só voz, com energia e visão.
O paradoxo, hoje, é que a Europa parece reunir todas as condições para se tornar um grande actor da globalização - e, no entanto, sempre que uma oportunidade surge, ela não descola, como se uma maldição a condenasse a permanecer quase invisível em termos mundiais.
Para ultrapassar este paradoxo e os bloqueios a que ele dá origem, a Europa necessita sem dúvida de mais coordenação, audácia e realismo. Mas ela precisa ainda mais de um reencontro com a sua história, em toda a sua diversidade e densidade. Porque a verdade é que a Europa se identificou, no processo da sua construção, com um singular "fim da história" que a poupasse aos traumatismos dos brutais conflitos do seu passado recente. Mas o êxtase jubilatório em que assim se encapsulou conduziu-a a uma indolência estratégica que a deixou desamparada para agir no inesperado mundo que tem pela frente.
É pois altura de a Europa se investir como potência e assumir um projecto que lhe dê um papel maior na globalização, começando por apoiar o difícil mas corajoso programa de regeneração da finança apresentado por Obama, e dando finalmente os passos que se impõem no sentido de dotar a União Europeia de um governo económico.
Não o fazer é condenar-se a ficar cada vez mais fora de história. Mas agora já não se trata de ficar numa posição de domínio, como durante décadas se imaginou, mas na de uma progressiva exclusão, que se traduzirá, como há semanas lembrava J. Attali, em "perder os seus principais mercados; em ver as suas empresas mais competitivas serem compradas, copiadas ou objecto de concorrência selvagem; em perder os seus centros de decisão e as suas elites; em deixar de ser um actor dos grandes acontecimentos, mesmo dos que determinam o seu futuro; em ser incapaz de manter o nível de vida das suas classes médias, a não ser no curto prazo e a crédito" - eis toda a diferença entre viver o fim da história e ficar fora dela.
Manuel Maria Carrilho, Diário de Notícias (sublinhados meus)