segunda-feira, 8 de Fevereiro de 2010

O emprego


Vi um anúncio de emprego que rezava assim:

Pretendemos colaboradoras do sexo feminino com;
* 20 aos 35 anos
* Competências comunicacionais
* Divertida
* Sexy
* Dinamismo e ambição
* Gosto por trabalhar em equipa
* Boa apresentação
* Organizada
* Criativa
* Gosto pela comunicação
* Sentido de responsabilidade no cumprimento de prazos
* Viatura própria
* Disponibilidade imediata

"Divertida" e "sexy" já entrou no vocabulário há algum tempo, embora não perceba muito bem com que cara as pessoas concorrem a estas coisas. Um empregador assumir, no entanto, que procura uma pessoa "ambiciosa" é que nunca me tinha ocorrido. Não devem estar bem a ver o perigo, com certeza. Os anúncios de emprego são, hoje, uma espécie de catálogo do que há disponível. Como é tudo farinha do mesmo saco e formatados todos da mesma maneira, não admiram os valores do desemprego.

A telenovela


Portugal anda, há uma semana, entretido com uma telenovela chamada "Uma vivenda em Óbidos". Uma coisa que não serve para nada, nem sequer para resolver burocracias terroristas, e que vale tanto como um concerto de "Mickael" Carreira ou um happy few Alice in Wonderland com pessoas mal mascaradas e que julgam que essa obra da literatura inglesa é um filme da Disney.

Gado manso


O segundo governo de José Sócrates, desde o fim de Outubro, já nomeou 1361 pessoas para cargos públicos. Como é que não há-de isto andar tudo mansinho?

A infame "classe média"


Uma das notícias de sociedade de hoje nos jornais, é que há cada vez mais pais que não pagam os colégios privados onde os filhos se mantêm. Há um caso de um estabelecimento em que 30% da criançada frequenta aquilo sem pagar uma mensalidade que não é aumentada há dois anos. Como é óbvio, até porque um colégio privado não tem adjacente à sua categoria o sinónimo obrigatório de qualidade de ensino, isto prende-se com comportamentos fáceis de analisar tendo por base a esquizofrenia mais simples. A classe média portuguesa, que sempre foi tão frágil, colapsou nos últimos dois ou três anos e acha que a dignidade mantém-se com os rebentos num colégio em vez de os mandarem para o ensino público onde aprendem a mesma coisa e acrescentam a vida real dos contrastes, com carros agradáveis ao olho mas com almoços rápidos de sandwich, com umas toilettes giras em vez de uma certa contenção, com viagens ao Brasil com empréstimos em vez da inconveniência de um T2 ou T3 nas Laranjeiras e por aí em diante. Já não bastava a mediania de espírito que assola convenientemente a humanidade há séculos, existe também um limbo entre o ter e o não ter que, normalmente, funciona como o circo privado de cada um. Isto era divertido e até tornava as pessoas mais interessantes, se não fosse equivalente a um queixume permanente que, por sua vez, significa uma frustração cada vez maior com a ausência material e o desprezo completo pela tranquilidade emocional. Os pais bem dizem aos jornais que não querem, nem que a vaca tussa, privar os filhos de boas oportunidades académicas sendo que, normalmente, quando saem do tal colégio que, na zona, é o melhor de todos, e vão para casa, devem educá-los na maior obscenidade. Uma vez, uma garota bem sucedida dentro do género, disse-me que uma das suas grandes ambições na vida era manter um filho num colégio e que isso a fazia meter o que gostava e não gostava ao bucho não fosse ele, o filhinho, tornar-se tão normal quanto outro qualquer. E mete. Era assim a vida deles.

domingo, 7 de Fevereiro de 2010

Entrada à pala

Grande parte da cultura disponibilizada pelos organismos públicos é gratuita. Nos museus, nos palácios, nos teatros, no bailado, são mais os que entram sem pagar bilhete do que os que pagam, "noticia" o jornal Público.

Eu, uma vez, perguntei, com ironia discreta, a uma pessoa do métier se achava que as salas cheias queriam dizer alguma coisa. Responderam-me que sim, aquilo era mesmo lucro e interesse das pessoas pela cultura, um óptimo trabalho de divulgação e não, não eram mesmo amigos dos amigos dos amigos. Lá agora, que disparate! Calei-me, está bom de ver, e sorri. Pela minha parte, só sei que nunca paguei para ir ao São Carlos porque chegaram-me sempre convites, que já entrei uma data de vezes sem pagar em museus, que tenho, basta querer, livros de borla ou com mega-descontos que, ao teatro, também já fui umas vezes a custo zero e que tive uma assinatura de "amigo da Companhia Nacional de Bailado" absolutamente gratuita. De resto, não adianta fazer das pessoas parvas. Há muito boa gente a trabalhar na Cultura que precisa de viver mas há muitas outras a trabalhar fora e que, pura e simplesmente, não estão para pagar um produto que, em Portugal, é caríssimo e nem sempre bom. Na Europa, vai-se à ópera por €5 e sem os provincianos jogos sociais portugueses e vêem-se coisas óptimas. E também não adianta andar a dizer que, de repente, existiu uma sensibilização para a Cultura quando nada disso equivale à existência de mais e melhores meios de produção. Pelo contrário, Portugal só teve Ministério da Cultura em 1996 que, dada irrelevância para que está virado agora, deve estar quase a acabar e, entretanto, vai tendo cada vez menos dinheiro. Não perceber que a Cultura é um factor de dinamização económica através da criação de emprego num País é não perceber nada. Como é que uma ministra que nem sequer consegue resolver concursos básicos de subsidiação consegue resolver o que quer que seja? Ao menos tenha a coragem para acabar com eles de vez. Quanto mais borlas forem dadas, e não adianta querer que elas não sejam aceites porque há pouca gente que, não tendo o bilhete pago, continua a ir ver ou visitar qualquer coisa, mais salas esgotadas existem sem que isso corresponda a dinheiro e menos possibilidade há de receber pessoas dispostas a pagar. Além disso, querer-se que um pai de família dê dinheiro para ir a um museu ou ao teatro (ver alguma coisa de jeito e não a "Conversa da Treta" ou o La Féria) em vez de ir à bola, é um processo que só é possível de acreditar com muita propaganda. Não está nos genes de um latino.

De pequenino se torce o pepino


Está uma mulher a dizer na TVI que ir ao concerto de "Mickael" Carreira "é para esquecer os problemas". Ele agradece e os problemas dela continuam, naturalmente. Desde pequeno que é espertalhão. Quando andava misturado com os betinhos que se riam dele, ignorava-os olimpicamente e com inteligência. Hoje, no contexto medíocre em que se anda, vale e pode mais do que eles e os seus apelidos todos juntos. É bom não ser envergonhado e estar no sítio certo à hora certa.

We are the world, we are the children

(uma gaiola na RTPN)

Excuse me?


Sócrates, o fraco ditador

Nem o Jornal de Sexta, nem o PÚBLICO tinham o poder de pôr em risco o Governo ou sequer de afectar significativamente o prestígio e o estatuto de Sócrates. Se alguém tinha esse poder era o próprio José Sócrates, para não falar no grupo obscuro e anónimo, que, segundo se depreende dos documentos que o Sol revelou, o serviu zelosamente no terreno. Não vale a pena insistir na ilegalidade e, sobretudo, na profunda imoralidade da operação, se por acaso existiu como a descreveram. Em qualquer sítio para lá de Badajoz, nenhum político sobreviveria um instante a essa grosseira tentativa de suprimir com dinheiro público o livre exame e a livre crítica, que a Constituição e os costumes claramente garantem. Mas não deixa de surpreender (e merecer comentário) que um primeiro-ministro de um partido que se gaba das suas tradições democráticas, declare por sua iniciativa, e sem razão suficiente, guerra aberta à generalidade dos media, que não o aprovam, defendem e bajulam. Não há precedentes na história deste regime de um ódio tão obsessivo à discordância, por pequena que seja, ou a qualquer oposição activa, de princípio ou de facto. O autoritarismo natural de Sócrates não basta para explicar essa aberração na essência inteiramente inexplicável. Tanto mais que ela o prejudica e dá dele a imagem de um homem inseguro e fraco. Pior ainda: de um homem desequilibrado e perigoso. A única hipótese plausível é a de que o primeiro-ministro vive doentiamente no mundo imaginário da propaganda. Ou melhor, de que, para ele, a propaganda substituiu a vida: Sócrates já não partilha ou nunca partilhou connosco, cidadãos comuns, a mesma percepção de Portugal. Do "Simplex" que nada simplifica ao estranho melodrama sobre as finanças da Madeira que nada pesam, aumenta dia a dia a distância entre o que país vê e compreende e o que o primeiro-ministro afirma enfaticamente que é. Está perto o ponto em que só haverá uma solução: ou desaparece ele ou desaparecemos nós.

Vasco Pulido Valente, Público (sublinhados meus)

"Olhar o Mundo" de forma inquinada


Está uma menina na RTP2, chamada Márcia Rodrigues e que ano após ano galga a hierarquia da RTP sem se perceber muito bem como, a apresentar um bloco "noticioso" chamado "Olhar o Mundo". Depois de duas peças sobre o estado miserável das contas públicas da Grécia e de Espanha, instigou um dos comentadores de serviço (um tipo que ninguém imagina quem é, um tal "Carlos Santos", mas que abre a boca e percebe-se logo que não passa de um bibelot) da seguinte forma: "Com estas medidas, nota-se que o governo espanhol é um governo empenhado em resolver a crise, não nota?" E ele avança, com uma voz de periquito fina e insegura, "sim, é um governo empenhado..." e, quando pretendia continuar, Rodrigues atropela dizendo qualquer coisa como "sim, empenhado, dedicado e responsável". "Carlos Santos" diz que sim com a cabeça e a apresentadora passa ao outro tacheiro que diz outra vez que "sim" a uma treta qualquer. Não pode haver quem acredite na informação da RTP e quem não entenda que a RTP é um flyer de Sócrates e das suas conveniências.

sexta-feira, 5 de Fevereiro de 2010

Bom fim-de-semana


Descobriu-se que os chimpanzés adoptam chimpanzés pequeninos dos quais não são progenitores. Feitas as contas, o Homem não é mais do que um macaco de imitação.

Apesar de ser um "tumor da sociedade", sempre penso


António-Pedro Vasconcelos

Afinal, o próprio realizador pensa o mesmo que eu. Já não é mau porque é um bocadinho melhor que o esterco comentadeiro. Em suma, os apoios têm de existir e não podem existir políticas de gosto. Se não podem existir políticas de gosto, mesmo tendo de existir apoios, não é concebível que exista apoio a uma coisa que, pelos vistos, nem com 200 mil espectadores, vai compensar um investimento astronómico. Quantas pessoas que vão ao cinema para se rir terão de sair de casa? Ou seja, a única forma de isto ser justo e ausente deste tipo de crítica (como a minha, que se inicia precisamente na questão dos subsídios ligada a uma coisa que eu não gosto e que tenho o direito de não gostar como contribuinte), é não ser o Estado a decidir a quem e a que é que dá o apoio. Como as televisões privadas fazem: numa lógica de agradar ao público a que se dirigem, fazem o que querem com o dinheiro que ganham e não com o de quem trabalha (e paga impostos). Justíssimo, inteligente e inevitável por muito que os programas não tenham qualidade. É a lei do mercado a funcionar e perfeitamente passível de ser criticada nos conteúdos sem deixar de ser "justa". Da mesma forma, existirá alguém que vai dar os subsídios a quem se dirige, não à massa, mas a nichos de mercado (se tudo funcionar de boa fé o que é difícil). O Estado, como detentor de decisão, não pode existir mesmo que apoie. E tem de haver, devidamente proporcionado, dinheiro, por pouco que seja, para tudo. Ah!, e afinal o "FICA e o ICA", diz o realizador Vasconcelos, "estão mal concebidos". Pois, obrigado. Então, se o realizador acha que estão mal concebidos, por que razão aceitou o que veio de lá?

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...Eu não sou contra a intervenção do Estado. Não há cinema português, nem haverá por muitos anos, se não houver essa intervenção. O que digo é que o Estado não deve ter uma política do gosto. A solução é simples: é transformar as taxas em obrigações. Isso faz-se em 24 horas: toda a cadeia de valor - os canais generalistas, as televisões por cabo, os distribuidores, as cadeias de exibição, os editores de vídeo... toda essa cadeia de comercialização dos filmes tem de ser obrigada a reinvestir uma parte do volume de negócios em novos filmes. Como acontece actualmente. Só que isso, em vez de ser entregue ao Estado, para ele arranjar cinco indivíduos que decidem a quem é que se distribui o dinheiro, deve ser decidido pelos produtores, que passam a ter vários "guichets" onde propor projectos.

Não é esse o papel do FICA?

O FICA está mal concebido. Como o ICA. É gravíssimo o que se está a passar. Não tem funcionado nem cumprido os seus compromissos. Tem de ser revisto no quadro de uma revisão global do cinema. Dizer que o FICA é para o cinema comercial e o ICA é para o cinema de autor é um absurdo total. O FICA tem que ser um instrumento de capital de risco, que complemente o investimento que o mercado não é capaz de fazer. Temos de acabar com o sistema de apoios tal como ele existe hoje.

António-Pedro Vasconcelos, Público

Educação Sexual

Ontem, uns adolescentes inconsequentes, frágeis e que não estão a par do mundo moderno como tanto ambicionam, andaram a gritar, entre outras coisas, porque querem "educação sexual nas escoals". Uma menina com ar de quem já tinha aprendido tudo o que tinha a aprender, disse a uma televisão, com pastilha elástica na boca, que, no ano passado, só tinha tido "uma aula", "na escola", esclareceu. Depreendi que tinha tido mais aulas somewhere over the rainbow. No dia anterior, na quarta-feira passada, nos EUA, apareceu mais um estudo científico onde é possível provar, mais uma vez com bases científicas, que a educação sexual dada nas escolas ou onde quer que seja, a existir como disciplina (ridículo), tem de ser precisamente no sentido da abstinência. Diz lá no estudo que, desde que passou a existir a temática nas escolas, o HIV e a gravidez adolescente, aumentaram contrariando a última década de decréscimo de casos. Os preservativos oferecidos como rebuçados, os alertas, o folclore, a confiança na sensibilidade humana, os laivos de uma vida intensa e "cheia", deixam, afinal, muitas portas abertas. Mais abertas do que era suposto e esperado. Favorecer o sexo pelo sexo "desculpando" isso apenas com o pretexto do sexo seguro, pelos vistos e por muito que custe, é uma perfeita aldrabice e aplica-se a todas as "modalidades" da sexualidade.

Um País e a Província Portugal

Em Inglaterra, cerca de 400 deputados estão a ser obrigados a devolver dinheiro ao Estado que lhes foi displicentemente atribuído desde 2004 até 2009. Foram descobertas "irregularidades e abusos" naquilo que foi chamado de "falta de legitimidade de decisões tomadas devido a uma cultura de deferência". Em Portugal, é ao contrário. Dá-se dinheiro, descobre-se, vai para os jornais e depois chega-se a "respostas não conclusivas". E, pior que isso, há um certo orgulho em ter conseguido ser aldrabão, um orgulho manhoso de quem confortavelmente vai achando que é esperto.

É a vida

“...das conversações entre Paulo Penedos e Armando Vara resultaram indícios muito fortes da existência de um plano em que está directamente envolvido o Governo, nomeadamente o primeiro-ministro, visando o controlo da estação de televisão TVI e o afastamento da jornalista Manuela Moura Guedes e do seu marido, José Eduardo Moniz, para controlar o teor das notícias.”

“...resultam ainda fortes indícios de que as pessoas envolvidas no plano tentaram condicionar a actuação do Presidente da República, procurando evitar que o mesmo fizesse uma apreciação crítica do negócio”

Despacho do juiz do processo Face Oculta, no Sol

quinta-feira, 4 de Fevereiro de 2010

A Europa vive de far(ççç)as

Manuel Maria Carrilho escreve a propósito da parvoíce que é a Europa actual, da inutilidade do Tratado de Lisboa e do momento Obama permanente em que a Europa vive com cada vez menor autonomia. Vale a pena ler.

"O drama da Europa é que ela nunca está onde se espera encontrá-la", N. Gnesotto

Será que, afinal, a humanidade cria problemas para os quais não é capaz de encontrar soluções? Até hoje, a história parecia dar razão a Marx, que afirmou que o homem só formula problemas para os quais é possível descobrir respostas. Será que, também aqui, as coisas estão a mudar?

A frequência com que hoje, nos mais diversos sectores ideológicos, se fala, invoca ou reclama um novo paradigma é no fundo o reconhecimento de que o quadro actual de soluções pensáveis e disponíveis não corresponde aos problemas que se nos colocam. E que, em rigor, não se trata pois de soluções, mas de paliativos. De resto, se essas soluções existissem, isso saber-se-ia… e que político não avançaria, afoito e determinado, se tivesse na mão a solução para o problema do (não)crescimento, do desemprego ou do clima?

É contudo importante compreender que a principal razão por que não há soluções não é porque não haja ideias, mas porque não há poder para as concretizar: a globalização dissolveu o poder político nacional sem viabilizar nenhum poder político global. Os Estados deixaram de ser centros de autoridade soberana, eles não controlam a moeda ou a informação, a tecnologia ou as trocas internacionais. A máxima "pensar global, agir local" revela-se um slogan inútil e enganador. O que os cidadãos sentem é que os Estados encarnam cada vez menos o colectivo, dando lugar a uma impressão de impotência e de inutilidade, com o qual lidam de um modo contraditório, ora desprezando-os com sobranceria, ora exigindo-lhes tudo com angústia.

A globalização tornou assim toda a política externa num elemento decisivo da política interna. A consciência deste facto e a das suas consequências são da maior importância para a Europa. Porque agora, que o problema institucional foi ultrapassado com a entrada em vigor do Tratado de Lisboa, é o momento certo para se dar um conteúdo mais ambicioso ao seu projecto.

O desenlace de Copenhaga e a lentidão na reacção ao terramoto no Haiti não foram certamente os melhores sinais que a "nova" Europa do Tratado de Lisboa gostaria de ter dado. Mas a ocasião criada pelas propostas de Obama para uma profunda alteração das regras do mundo financeiro oferecem uma outra oportunidade, que seria excelente não perder. Bastava que a Europa o apoiasse a uma só voz, com energia e visão.

O paradoxo, hoje, é que a Europa parece reunir todas as condições para se tornar um grande actor da globalização - e, no entanto, sempre que uma oportunidade surge, ela não descola, como se uma maldição a condenasse a permanecer quase invisível em termos mundiais.

Para ultrapassar este paradoxo e os bloqueios a que ele dá origem, a Europa necessita sem dúvida de mais coordenação, audácia e realismo. Mas ela precisa ainda mais de um reencontro com a sua história, em toda a sua diversidade e densidade. Porque a verdade é que a Europa se identificou, no processo da sua construção, com um singular "fim da história" que a poupasse aos traumatismos dos brutais conflitos do seu passado recente. Mas o êxtase jubilatório em que assim se encapsulou conduziu-a a uma indolência estratégica que a deixou desamparada para agir no inesperado mundo que tem pela frente.

É pois altura de a Europa se investir como potência e assumir um projecto que lhe dê um papel maior na globalização, começando por apoiar o difícil mas corajoso programa de regeneração da finança apresentado por Obama, e dando finalmente os passos que se impõem no sentido de dotar a União Europeia de um governo económico.

Não o fazer é condenar-se a ficar cada vez mais fora de história. Mas agora já não se trata de ficar numa posição de domínio, como durante décadas se imaginou, mas na de uma progressiva exclusão, que se traduzirá, como há semanas lembrava J. Attali, em "perder os seus principais mercados; em ver as suas empresas mais competitivas serem compradas, copiadas ou objecto de concorrência selvagem; em perder os seus centros de decisão e as suas elites; em deixar de ser um actor dos grandes acontecimentos, mesmo dos que determinam o seu futuro; em ser incapaz de manter o nível de vida das suas classes médias, a não ser no curto prazo e a crédito" - eis toda a diferença entre viver o fim da história e ficar fora dela.

Manuel Maria Carrilho, Diário de Notícias (sublinhados meus)

Lidar com a Massa

"A massa e os mais grosseiros identificam felicidade com o prazer e por isso procuram uma vida voluptuosa. Os homens vulgares mostram-se pois completamente servis ao preferir uma vida de bestas."

Aristóteles.

O Ditador

É-o no sentido que dou à expressão quando frequentemente digo, referindo-me até a mim mesmo, que 'às vezes é preciso ser-se um pouco ditador'. O titular do poder de decisão tem a certa altura de impor o seu critério, não fazendo do diálogo e da procura de consensos um espartilho que o agrilhoa. O Prof. Cavaco Silva é 'ditador', sim", pois "nunca se furtou a assumir responsabilidades e a decidir pela sua cabeça, apenas porque esta medida ou aquela não era consensual.

Belmiro de Azevedo sobre ter chamado "ditador" a Cavaco Silva

quarta-feira, 3 de Fevereiro de 2010

Sinais

Apesar de ter sido por causa da Lei de Finanças Regionais, um assunto menor para o todo nacional, Portugal tem a hipótese, segundo o próprio, de ficar sem este primeiro-ministro. Se tal acontecer, é caso para lembrar que Deus não dorme. Isso trará mais uns meses de standby mas, a isso, já está tudo habituado.

O nosso pequeno Estaline


Há medo no jornalismo de hoje?

A resposta que a comunidade jornalística tem dado a este assunto é encorajadora de que não há inibição em retratá-lo e os editores consideram-no um episódio importante.

Mas, no dia-a-dia, quando o jornalismo se mistura com os interesses? Falou do caso de Manuela Moura Guedes...

Esse caso é, na minha opinião, o caso mais grave da história da imprensa desde o 25 de Abril. Não há dúvida nenhuma de que é uma situação séria. A maneira como transfiguraram a redacção da TVI é séria. Até digo mais, é séria a própria reacção da TVI... a maneira como foi desmembrado um programa que em termos comerciais era um sucesso. Era visto. Agora o que não é aceitável é que venham dizer que a pessoa está doida, precisa de ser internada num manicómio. É curioso... o Estaline fez isso! Portanto isto são mecanismos um bocado orgânicos e interpretações de poder um bocado questionáveis - e é isso que me preocupa essencialmente.

Mário Crespo ao i

"Salvador", o benzoca bonzinho

Há uns tempos que não tenho e, por inerência, não vejo televisão. Ontem jantei numa sala onde estava um televisor ligado na RTP e "actualizei-me" ficando a saber da existência de mais um "Salvador" dos contribuintes. Não percebi muito bem como é que aquela família e aquele rapaz se prestam ao número. Também não interessa. São os costumes. Eu, quando vejo os nossos “nobres” contemporâneos, lembro-me sempre de Afonso da Maia que dava esmolas sem contar a ninguém e, quando se sabia, ficava envergonhado. Esta gente vem para a televisão desmistificar não se sabe bem o quê. Perdeu-se muita noção da dignidade, inclusivamente daqueles pobres coitados que se prestam a aparecer como gratos ao “Salvador” que, por acaso, até podia fazer aquilo tudo sem ser num palco. Salvador Mendes de Almeida tem uma associação com o seu nome e dedica-se a causas que valorizem a qualidade de vida do condicionado motor. Quando oferece voltinhas ao Estoril de mota e passa isso na televisão, com a sua cara permanentemente visível, e põe familiares e amigos a falarem dele, da sua personalidade e da sua vida em vez daquilo que importa resolver, passa a fazer um papel muito menos condizente com aquilo a que aparentemente se propõe. Poderá dizer-se que, além de bom, para contrabalançar, não resiste à vaidade. É uma pena. A Associação Salvador, que se apresenta com uma missão digna e, por acaso, tem o apoio da Mota Engil, tem um programa na RTP, tem o patrocínio de Maria Cavaco Silva e do Turismo de Portugal, podia não fazer as vezes de Manuel Luís Goucha. É a parte dispensável.